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Vídeo de um incidente numa aula no Porto, envolvendo uma aluna uma professora e um telemóvel, tem originado múltiplos comentários. Aqui fica mais um.
Antes da minha opinião gostaria de falar dos muitos comentários, sobretudo nos jornais on-line. Culpou-se o governo/Ministra , os pais, os alunos, os professores e a escola. Infelizmente o PSD foi atrás da 1ª hipótese, o Governo de nenhuma delas (a culpa é, como se sabe, solteira, quer em vida quer na morte). Pessoalmente acho que é da falta de Civismo.
Não é do governo, pois estes incidentes já aconteciam antes desta Ministra e vão voltar a acontecer. Não há lei que altere esta situação específica nem outras situações de violência que se conhecem.
Não é dos pais, porque por muito que façamos em termos da educação dos nossos filhos, e neste aspecto creio que tenho feito tudo o que posso, nunca poderemos garantir que eles não façam asneiras. E ver irmãos a terem comportamentos tão diferentes é testemunho diário disso mesmo.
Não é da aluna, porque aquele comportamento só pode ser resultado de múltiplos factores e não apenas de um (mau) "humor".
Não é dos professores, que não têm meios para enfrentar este tipo de situações.
Não é da escola, porque esta é apenas um peça do puzzle da educação e, tal como os anteriores agentes, não podem resolver nada sozinhos.
Mas não sendo de nenhum em particular é de todos, E sendo de todos é do País.
O Governo criou um ambiente de guerrilha na educação. Acusou os professores de absentismo, logo no início da legislatura, e de falta de profissionalismo, para justificar algumas medidas. Acusou os alunos de laxismo para justificar outras.
Os pais são, esses sim, “ausentes” militantes, participando muito pouco na vida da escola (nos últimos três anos fui representante dos pais e o máximo que consegui foi reunir 3 pais, numa turma de 15 alunos, nas 9 reuniões que já convoquei).
Os alunos encaram, na sua maioria, a escola como uma obrigação (o que até certo ponto é verdade) e não vêem interesse na maioria das disciplinas.
Os professores manifestam-se quando as alterações legais interferem nos seus salários, independentemente da justeza de algumas das suas reenvidicações, e esquecem-se que também são pais e cidadãos e pouco opinam sobre o estatuto do aluno ou o fecho das escolas entre outros temas que, relacionados com a educação, influenciam o ambiente na escola.
Esta não consegue se posicionar no sistema educativo, com direcções compostas maioritariamente por professores, defendendo causas de classe. Basta pensar o modo como as aulas de substituição foram tratadas, focalizando-se as críticas (negativas) na falta de disponibilidade dos professores, de espaços, etc, e esquecendo as vantagens ou procurando aproveitar esses períodos para, por exemplo, estabelecer pontes de comunicação com os alunos.
Perante este cenário de culpas e desculpas podemos pensar que a solução passa por todos estes agentes ou por nenhum.
Não ouvi nem li nenhuma opinião que, de forma eficaz, apresentasse uma solução legislativa para o problema. Como bem disse a Ministra, o Código da Estrada não impede os acidentes. Nem o da Estrada nem nenhum outro. Os acidentes evitam-se com maior civismo. E se o Civismo não é estabelecido por decreto é sempre possível fazer mais para o promover.
Os pais, como já referi, sendo os principais actores da educação dos seus filhos, estão sempre presos à sua própria educação e à da sociedade em que vivem. E nestas falta muito civismo. Mas se não forem os pais a reconhecer a sua falta de civismo (patente diariamente no modo como conduzimos) ninguém o pode fazer por eles.
Os alunos têm que perceber que além de direitos também têm deveres, mas esta realidade é uma das bases do civismo que não conhecem.
Os professores devem analisar a sua vocação e reconhecer que muitos o são porque não tiveram outra saída. E sendo esta a única saída, profissionalizarem-se. É uma questão de civismo.
As escolas também se devem profissionalizar. Um bom professor não é obrigatoriamente um bom gestor. Tal como foi feito há anos atrás com os hospitais a existência de gestores escolares não será má ideia de todo. (a 1º vez que a ouvi foi a Marques Mendes numa conferência aqui em Coimbra).
Muito passa, pois, pelo civismo. E se este não se decreta. É algo que se adquire ao longo de uma vida e se vai transmitindo. Como é que um pai que fala no carro ao telemóvel sem kit mãos livres, alegando, no seu carro de 30 000 €, que são caros, pode dizer aos filhos para não usarem o seu (tlm) onde não devem? E estes que na televisão vêem os seus ídolos a usar os telemóveis e a insultar os professores, compreenderão o que é novela e que é realidade? E como é que um professor que no dia anterior gritava impropérios à "Milu" pode ser tratado com respeito (o direito à manifestação não é um direito ao insulto )? E o presidente do Conselho Directivo que me diz que não fumar no espaço da escola é só por alguns porque eu não devo estar à espera de que um professor vá fumar para a porta da Escola, poderá punir os alunos que o fazem? E a Ministra que diz que está pronta para negociar desde que isso não implique alterar a sua posição, como explica aos alunos o conceito de sensatez?
Sem civismo a alternativa é o autoritarismo. Multar, autuar, prender se for o caso (e qualquer uma destas opções foi referida nos muitos comentários ao vídeo) é fácil é barato e dá milhões, mas não previne acidentes e não evita incidentes como este. Esta aluna (mesmo se multada e transferida de escola), estes pais (mesmo se autuados), esta professora (memo se com uma nota má na avaliação) esta escola (mesmo com outra direcção) e este Governo (mesmo que com outra Ministra) vão continuar a ser o que são: aluna noutra escola, pais noutro concelho, professor no novo ano, escola de outros alunos e Governo com a mesma politica.
É a falta de Civismo que grassa por aí que leva a:
Condutores a falar ao telemóvel ou a estacionar em passeios;
Peões a atravessar fora da passadeira;
Ambulâncias a atravessar passagens de nível fechadas;
Agricultores a fazer queimadas em pleno Verão;
Comissões de Festa a lançar foguetes na mesma época;
Pessoas a deitarem lixo para onde não devem;
Miúdos a pintar paredes e sinais de trânsito;
Fumadores em elevadores;
Donos a passear os cães sem trela; etc etc.
Nenhuma lei, impede isto de acontecer. Somos todos nós que temos de mudar e dar o exemplo.